domingo, fevereiro 03, 2008

A Galinha foi ao Bolhão

O sábado de acção contra a alienação do Bolhão começou por volta das 3 da manhã, quando cerca de dez saíram para colar duzentos Avisos à População. Na manhã seguinte, ao chegarmos ao Bolhão, pudemos testemunhar que a quase totalidade deles ainda estava onde tinha sido colada e que, como esperávamos que acontecesse, captava a atenção dos passantes.

Em frente à entrada da Rua Formosa, abriam-se duas mesas para a recolha de assinaturas duma petição qie pretende impedir a demolição de todo o interior do mercado. A adesão superou as expectativas nais optimistas e não se exagerá se se disser que foram recolhidas centenas. Deu, ainda, para entender que para os portuenses, inclusivamente para algumas das pessoas que trabalham no Bolhão, a solução que representa a entrega desse espaço à empresa TCN não está clara. Muita gente sabe que vai ser "vendido a uns holandeses", mas muito pouca conhece os plano dessa malta dos países baixos.


À medida que se iam juntando, as vozes perdiam a timidez e soltavam-se em cantares feitos à medida. Da rua passou-se para dentro, circulamos, paramos, subimos e descemos escadas, atendemos a pedidos da zona do peixe, as vendedeiras ajudaram ao coro, de fora pediam que passássemos por determinada zona, assim o fizemos. Quando, finalmente, voltamos à Rua Formosa, já era perto da hora do fecho. Tempo ainda para um certeiro e bem humorado leilão da cidade do Porto, onde vários monumentos foram entregues à melhor oferta e à proposta mais criativa. Transformado o mercado do Bom Sucesso em praça de Touros e o pavilhão Rosa Mota e seus jardins em campo de golfe, a cidade que Rui Rio constrói promete.


Da jornada, retemos que é preciso voltar. Há falta de informação, há centenas de outras assinaturas a recolher, há, sobretudo, a promessa feita de que voltaríamos a quem nos disse que o que era preciso era estar ali todos os dias.

Fonte -- sardera.blogspot.com

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Ninguém é ilegal!


Por volta das 15h30, soara o alarme. O SEF preparava-se para, ainda nessa tarde, proceder à deportação de mais alguns dos imigrantes detidos no Espaço de Acolhimento de Estrangeiros e Apátridas/ Unidade de Santo António, no Porto. Ninguém conseguiu chegar às instalações do SEF antes das 16h30 e, mesmo os que chegaram a essa hora, não viram ninguém a sair. Por volta das 18h00, a advogada de alguns de alguns dos detidos informou que já só estavam seis marroquinos dentro do CIT. A deportação vespertina já tinha tido lugar.
Por volta das 18h30 cerca de três dezenas de pessoas estavam junto ao portão de entrada do Centro, no seguimento de um apelo para uma vigília decidida às três pancadas na noite anterior, no seguimento das notícias sobre as primeiras operações secretas, e ilegais, de deportação. Distribuíamos um folheto, também ele definido em cima da hora, onde se questiona o ministro sobre as políticas de emigração europeias e onde exibíamos uma faixa com os dizeres: “Ninguém é ilegal”.
A vigília durou cerca de duas horas. Por volta das 20h30, o deputado do BE, José Soeiro, tentou visitar os imigrantes para lhes entregar as mensagens que tinham sido recolhidas entre as pessoas que se manifestavam. Foi-lhe dito que eles já estavam a dormir.

Cá fora, a assembleia dos presentes decidiu marcar uma reunião para a próxima segunda-feira, dia 28 de Janeiro, na CasaViva (Pç Marquês de Pombal, 167 – Porto) para programar e preparar uma manifestação para o dia 9 de Fevereiro, onde se lute pela alteração desta lei criminosa que protege de facto as redes mafiosas de tráfico de migrantes, onde se denuncie a brutalidade da actuação do governo português neste caso concreto e onde, enfim, se pugne por esse direito fundamental que é o da livre circulação de seres humanos, sem esquecer que as migrações têm causas e que, essas sim, devem ser alvo de combate internacional. Consigamos que a miséria e a fome se transformem em memórias do passado e poderemos deitar o Frontex ao lixo.

Antes de desmobilizarmos, subimos a rua e, em frente ao bloco onde eles estão detidos, tentamos comunicar. Obtivemos resposta. Durante cerca de 5 minutos, conversamos com eles, fizemos-lhes sentir que havia gente solidária, sorrimos ao ouvir o seu “Obrigado”. Findo esse tempo, eles terão sido calados, mas puderam-nos ouvir durante mais alguns minutos até que a polícia nos impediu de prosseguir.



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Texto distribuído

O PSEUDO-HUMANISMO DO SR. MINISTRO RUI PEREIRA

O ministro da Administração Interna, Dr. Rui Pereira, declarou ontem que considera que tomou a decisão correcta quanto à expulsão dos marroquinos detidos no Porto e que o fez em nome de valores humanistas. "Uma política que não distingue a imigração legal da imigração ilegal é uma política que a prazo está condenada ao fracasso e que paradoxalmente acaba por fomentar o próprio tráfico de pessoas", justificou.

O Ministério da Administração Interna e o Serviço de Estrangeiros têm gerido a situação de forma pouco clara. Ora evitaram o esclarecimento sobre a situação dos marroquinos detidos, chegando-se a falar de segredo de justiça, ora apressam-se a proceder à expulsão dos imigrantes sem sequer informar pelo menos uma das advogadas que acompanha o processo.

Perante a forma como todo o processo foi conduzido e a iminência de expulsão dos restantes imigrantes marroquinas, o conjunto de associações abaixo mencionadas gostaria de colocar ao Sr. Ministro as seguintes considerações e questões:

1 – Foram os cidadãos marroquinos informados acerca do direito que lhes assiste de requererem autorização de residência por serem vítimas de tráfico ou de auxílio à imigração ilegal (art.109.º da Lei de Estrangeiros), dando a protecção adequada e a possibilidade de colaboração em investigação relativa às acções de tráfico de seres humanos e auxílio da imigração ilegal? Isso, sim, representaria o cumprimento da Lei e seria uma actuação pautada por valores humanistas, pois impediria que estes imigrantes, estas pessoas concretas, voltem a colocar a sua vida em risco.

2 – Quais as possibilidade reais que são disponibilizadas pelo nosso país e pelos restantes países da UE com vista a permitir oportunidades de imigração legal a estes e tantos outros marroquinos, a estes e tantos outros africanos, a estes e tantos outros cidadãos "extra-comunitários"? Poucas ou nenhumas. Ou pensa o Sr. Ministro que as pessoas arriscam a sua vida em pateras por gosto?

Na verdade, as declarações do Sr. Ministro são pura demagogia. Não é no desrespeito dos direitos e de vidas humanas que se vão encontrar soluções para os desafios civilizacionais que a Europa enfrenta. O que a experiência tem demonstrado é que a repressão e securização das fronteiras, para além de só ter resultado no total desrespeito pelos direitos humanos, não tem vindo a resolver o problema da imigração clandestina. Só tem agravado os seus contornos.

Mesmo conscientes da importância da mudança de fundo nas políticas migratórias europeias, consideramos que ela não pode ser feita à custa do desrespeito pelos direitos legais e humanos dos imigrantes.



Fonte: sardera.blogspot.com

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Pic-Nic nas Virtudes

O Parque das Virtudes está fechado à ano e meio, devido a um aluimento de 3 metros quadrados de terreno, por culpa de um Rui Rio subterrâneo.
Mas, como mais uma das suas virtudes, Rui Rio ainda nada fez para a população portuense volte a usufruir de um espaço verde.
Ao menos assim, a povinho sempre pode passar mais tempo em superficies comerciais, pois isso deve dar dinheiro a cãmara de Rio. (é uma teoria, mas nunca se sabe)



Sem cometários .........




A imagem diz tudo.



quarta-feira, dezembro 19, 2007

Manif dos Empresarios

Quantos "verdadeiros" empresários já não sonharam em fazer uma manif assim.




Sempre com humor....



"Queremos salários mais baixos" era o que mais se ouvia.

Loja Livre 15Dezembro 07


Uma cliente satisfeita


Não eram só artigos para o lar na Loja Livre


Loja Livre em Sta. Catarina

terça-feira, outubro 23, 2007

Porreiro, pá?

Porreiro, pá?

Depois da rejeição popular, em França e na Holanda, à Constituição, as elites europeias, através de comunicações oficiais pródigas em apelos ao debate e ao aprofundamento democrático, anunciaram o início dum período de reflexão. Esse tempo mais não foi do que o que mediou entre esse primeiro embaraço e o vislumbre de novas possibilidades de derrotar o inimigo e de impor a ordem que tinha sido recusada.

O nome não podia ser o mesmo, o que causava grande incómodo, já que o enorme cuidado colocado no baptismo original, para que o simples nomear deste acordo multilateral fosse, por si só, uma forma de legitimação, tinha sido em vão. Paciência, vai-se o epiteto Constituição, fica o conteúdo e até se ganha o desprendimento desse lastro incómodo que é o da consulta dos imprevisíveis povos europeus.

Sarkozy, um dos que mais necessitava de nova roupagem para a defunta, captou muito bem esta mensagem que Merkl tinha sugerido. Juntos impuseram a sua visão de que bastava um acordo breve que mantivesse a “primazia do direito comunitário” e da sua “economia livre e não falseada”, a “liberalização de capitais e serviços” e os seus efeitos sobre o mundo do trabalho, mas de forma não muito visível. Acrescentando um pouco ao que já existe em termos de tratados multilaterais que vão construindo a União Europeia (UE), tem-se o que se queria ter antes. A presidência portuguesa mais não teria, então, que redigir um mini-tratado que, somado ao emaranhado de tratados já existentes, fosse a redacção fiel do que tinha sido rejeitado. E, temos que reconhecer, Sócrates e os seus estiveram à altura.

A malta é que não gosta que façam de nós parvos, mas isso é coisa de somenos para os que vão cozinhando a forma de o mundo partir e repartir as suas riquezas. Eles gostam de cozinhar sozinhos porque sabem que quem parte e reparte é que escolhe a sua parte. Nem nos ouvem. Só dizem que tratado é tratado e temos que tratar de o cumprir, que assim é que as coisas podem andar para a frente e para a frente é que é o caminho, já lá dizia o outro, nem importa muito quem. E cumpri-lo, caro filho, significa agir de acordo com as normas que impõe. E impõe normas de organização política, de organização económica. Pois é, filho.

É legítimo defender quaisquer princípios de política e de economia. Os do neoliberalismo, por exemplo. Ninguém pode censurar que haja pessoas para quem a organização actual é a mais correcta possível. Que digam que não é bem assim quando a pobreza aumenta, quando a precaridade se generaliza, quando as despesas sociais do Estado diminuem, quando se mercantiliza a vida social. Pensam assim, vá-se lá saber porquê, mas podem fazê-lo, é direito deles pensar pelas suas cabeças e tentar arranjar forma de fazer vingar as suas ideias. Se calhar até têm razão, eu acho que não, mas isso sou só eu a achar, não diz nada a ninguém. O problema é que, ao vingarem, vingaram-se de todo o tempo de espera e, através do cumprimento do tratado, impedem que haja outra via para o desenvolvimento económico e social que não seja a de fortalecer os mercados e de privilegiar o investimento e os fluxos de capital privados.

Trazendo a coisa para a mesquinhez da vida real, os eleitores de um país podem votar maioritariamente num candidato com um programa marxista. Pode parecer irrealista, mas é um direito dos eleitores pensarem pelas suas cabeças e tentar arranjar forma de fazer vingar as suas ideias. Se calhar até têm razão, eu acho que não, mas isso sou só eu a achar, não diz nada a ninguém. A questão é que o candidato, depois de eleito, não pode aplicar o seu programa. Senão, lá está, viola o tratado e tratado é tratado e temos que tratar de o cumprir, que assim é que as coisas podem andar para a frente e para a frente é que é o caminho, já lá dizia o outro, nem importa muito quem.

A malta é que não gosta que façam de nós parvos, mas isso é coisa de somenos para os que vão cozinhando a forma de o mundo partir e repartir as suas riquezas. Eles gostam de cozinhar sozinhos porque sabem que quem parte e reparte é que escolhe a sua parte. Nem nos ouvem. Mas deviam, ao menos, saber que ninguém gosta de passar por parvo, muito menos quem o é, e deviam arranjar formas mais subtis de tornar os seres humanos obsoletos. E, mesmo que concordasse com o conteúdo do tratado, que há quem concorde, vá-se lá saber porquê, mas podem fazê-lo, é direito deles pensar pelas suas cabeças, se calhar até têm razão, eu acho que não, mas isso sou só eu a achar, não diz nada a ninguém, esta falta de cuidado bastaria para que me opusesse.

Fonte:
blogspot.sardera.com

sexta-feira, outubro 19, 2007

Levanta-te e faz-te ouvir

Mas fá-lo todos os dias. Assume que tens aceitado diariamente ser nada mais do que o espectador silencioso dum teatro de má qualidade montado para te entreter e cobrar chorudos lucros de bilheteira e não para fazer bom teatro.

Reapropria-te da tua coluna vertebral. Porque tu sabes que é assim, toma o teatro, que ele também te pertence. Vaia os canastrões. Não precisas de armas nem de grande barulho. Simplesmente, levanta-te e faz-te ouvir. De espectador silencioso, passa a espectador, actor, encenador,dramaturgo... dum teatro do Caminho, não da Chegada, dum teatro que reflicta sobre si mesmo como instrumento da mudança, em vez de perpetuar o mal no sonho hipnótico de quem assiste passivamente.


São os media corporativos que te oprimem com a sua desinformação?
Torna-te nos media alternativos. Sabes que as informações que te transmitem são falsas e manipuladoras? Desmascara-as, ri-te delas, proclama a tua verdade.


Tens medo de falar? Achas que, pessoalmente, vais tendo o suficiente eque, se deres nas vistas como dissidente, podes prejudicar-te e à tua família, cercear as tuas oportunidades de emprego e promoção e que as coisas, para ti, até nem estão assim tão más? Não te esqueças do que disse Brecht e que foi o que possibilitou o holocausto na Alemanha – se a coisate vier bater à porta, depois pode não haver mais ninguém para falar por ti.


Achas normal que os mesmos que te condenam a salários congelados ou em atraso, ou salários com os quais não consegues pagar o débito mensal à banca, que no fundo é uma renda barata de casa, que não te chegam ao fim do mês, trabalho casa, casa trabalho e sempre a poupar e nem falo dos subsídios da doença ou da deficiência, para não me enervar, salários que estão na cauda do leque salarial europeu, aufiram rendimentos mensais astronómicos, acoplados a grandes reformas antecipadas e auto-concedidas, falo de políticos, de gestores, de empresários? Achas admissíveis estes dois pesos e duas medidas para a necessidade e a justiça? Quando lês que"Pai perdoa a filho 12,5 milhões de euros", isto não te passa um atestadode carneiro num sistema cuja injustiça atingiu as raias do absurdo?

Consideras que a democracia representativa, em que te dizem que vives, há muito deixou de ser democracia, de te ouvir e que, impávida como um robot rogramado de longe, avança a passos cegos e firmes para desmantelar todas as estruturas sociais, que se orientavam no sentido de vir a garantir trabalho, saúde, educação, habitação em igualdade de oportunidade para todos, para entregar tachos lucrativos aos privados nascidos ao sol duma classe de eleitos? Não te indigna profundamente que se sirvam dos teus impostos para financiar cimeiras para planear mais negociatas entre grandes accionistas e os políticos testas de ferro, defendidas por milhares de polícias de choque contra os que ousam levantar-se e protestar?

Aceitas como um facto consumado que a democracia representativa te usapara se justificar a si mesma deixando-te escolher entre a bosta e oexcremento, entre o fogo e a frigideira, entre o mau e mais do mesmo? Que te promete reduções nos impostos, redução do desemprego e a tua participação democrática em referendos de importância vital e depois te trata como uma criança que não sabe o que quer, manda os teus filhos sem outra alternativa de emprego para a guerra contra a tua vontade, assina tratados à tua revelia e fomenta as deslocalizações de empresas, o desemprego e os teus baixos salários para favorecer a banca e o negócio multinacionais?

Achas suportável um verão que é inverno, um outono que é primavera, um horizonte onde agora a qualquer momento pode aparecer um tsunami, uma tromba de água, uma enxurrada de lama, um céu donde chovam pedras de granizo do tamanho de ovos de avestruz e uma terra que treme cada vez mais em todo o lado? Gostas de ver os oceanos a subir, as espécies animais a extinguir-se a grande velocidade, a herança biológica da nossa agricultura ancestral a ser dizimada por sementes predadoras para alimentar os lucros duma única multinacional e a herança do pesadelo que vais deixar aos teus netos marcada pela vergonha da tua inacção?

Acredita, não é para encher a tua carteira cada vez mais magra que os senhores da guerra e da indústria se mostram incapazes de organizar efectivamente a redução das emissões de gazes e poluentes, ou de admitirem consciência e responsabilidade que os transgénicos não são uma solução,são apenas negócio para alguns, morte para a biodiversidade vegetal,aumento do uso de pesticidas e um risco imponderável para a tua saúde. Estão demasiado ocupados a espalhar fósforo branco, urânio empobrecido,minas, químicos e vírus perigosos nos países que mantém religiosamente como terceiro mundo através dos torniquetes ao desenvolvimento que são o FMI e a guerra.

Deixaste de te sentir no direito de considerar as conquistas da tecnologiapara reduzir o trabalho humano como um bem da humanidade e o direito ao trabalho como um direito básico, inalienável e só sustentável pela reduçãodos horários de trabalho de todos e por uma divisão mais equitativa dos lucros através de salários para mais
gente? Já te perguntaste como é que isso aconteceu?

Um mundo "civilizado"onde a maioria das pessoas precisa dum comprimido para adormecer, outro para acordar e outro para andar contente durante o dia, está muito doente. Pensas nos teus filhos à mercê do abuso do álcool e das drogas, nos rios e rios de gente quimicamente alienada para adaptar-se ao insuportável? Ou para alimentar negócios que são minas de ouro, tanto os legais como os ilegais, obscenamente interligados numa rede de proteccionismo e lavagem de dinheiros, com proxenetismo, tráfico de pessoas e de armas pelo meio?

Já pensaste que o preço dos produtos é simbólico? Na verdade, na realidade, tudo aquilo que consumimos tem um preço de custo perfeitamente irrisório. Isso não te transporta o raciocínio para lado nenhum, entre camionetas de laranja e tomate e outros excessos de produção deitados ao rio para manter os preços altos, sapatilhas saídas a dois cêntimos vendidas a cem e a duzentos euros e tanta gente esfomeada, tanta gente descalça?

Gostas de ter o dinheiro dos impostos altíssimos, que pagas muitas vezes a dobrar, empregue em submarinos, tanques, aviões, munições, casernas e tropas que não te servem para nada, usadas em apoios militares às manobras determinadas por interesses de negócios privados de accionistas gananciosos, em países longínquos cujos habitantes nem te atacaram nem nunca te fizeram mal algum? Não sentes um ligeiro cheiro a sangue inocente e a carne de civis queimada nas tuas mãos quando encolhes os ombros a essa realidade? A expressão "objecção de consciência civil" não te indica algumas possibilidades?

Se os teus filhos mais agressivos e egoístas, aqueles a quem tens de ralhar constantemente porque batem nos irmãos para lhes tirar os brinquedos, que te mentem para se justificar, faltam ao respeito devido ati e a todos e demonstram a cruel e imatura incapacidade de se condoer como sofrimento alheio, tomassem o mundo de assalto, transformassem os seus brinquedos de guerra num arsenal bélico a sério e se tornassem em despóticos senhores da guerra, usando os bancos como instrumentos de usura e coação, usando as verbas dos impostos que poderiam erradicar a fome, a doença, a ignorância, os nascimentos indesejados de crianças, em suma, a pobreza universal, em fundos para financiar as suas manobras pessoais de crianças enlouquecidas pelo egoísmo e pela ganância, e os media, que também controlassem, como meio para difundir as suas mentiras e nomear os seus bodes expiatórios, não seria isso um pesadelo dos mais macabros?Acorda: é a macabra realidade.

Recusa a esmola, as recolhas de fundos, os "lives aids", eles são o alívio momentâneo do teu desconforto e não fazem mais que ajudar o pobre a ficar como estava e os organizadores a ficarem mais ricos e famosos. Usa o teu voto como a preciosidade que ele é. Se necessário for, não o uses, porquedeixou de ser um direito teu, há muito que é a corda com que te enforcam.

Mas levanta-te e faz-te ouvir.


anónima do séc. XXI

quinta-feira, setembro 13, 2007

Este fim de semana na Casa Viva

Este fim de semana na Casa Viva haverá Punk em Terrritórios de Guerra e apoio cinematográfico à luta contra os Transgénicos que, espera-se, terá algum impacto na cidade, na tarde de domingo.

A não perder.

As derrapagens alemãs da guerra mundial contra o terrorismo (GMCT)

Os sinais da frente antiterrorista vindos da Europa são cada vez mais inquietantes, nem tanto pelo aumento visível da actividade terrorista, mas pela tentativa dos governos europeus de criminalizarem a oposição. Em primeiro lugar foi dito pelo governo alemão que 17 jornalistas foram inquiridos por terem publicado artigos acerca do inquérito parlamentar sobre a participação alemã nos voos secretos da CIA de transferência de prisioneiros na Europa. Na mesma semana surge um facto que dá um arrepio na espinha: vários investigadores em pesquisa urbana a trabalharem em Berlim foram submetidos a um inquérito secreto e acusados de terrorismo – um deles acabou mesmo por ser preso. As razões invocadas apontavam os seus trabalhos de pesquisa e as pessoas com quem se encontraram enquanto os realizavam.

O Dr. Andrei Holm, sociólogo urbano de 36 anos da Universidade Humboldt de Berlin, foi preso em 31 de Julho. Especializado no estudo do emburguesamento («gentrificação») em Berlim, escreveu a obra universitária Die Rekonstruktierung des Raumes (A Reestruturação do Espaço). Transferido de helicóptero para o tribunal federal de Karlsruhe, ficou prisioneiro em nome da lei de antiterrorismo com a presunção de «associação terrorista». Foi colocado no isolamento na prisão Moabit de Berlin, 23h por dia, com contactos parcimoniosos com os seus advogados e muito limitados com a sua família incluindo os seus três filhos.

Os domicílios e escritório de três outros investigadores foram revistados, seus computadores, cadernos de endereços e papéis profissionais revistos e confiscados. Todos os quatro estavam a ser vigiados desde Setembro de 2006, suspeitos de associação com uma «organização terrorista» chamada «grupo militante». As investidas da polícia e a detenção de Holm foram precedidas da prisão de três pessoas por, supostamente, terem incendiado vários camiões do exército em Brandebourg. Para além de culpar por vandalismo estas actividades que se declaravam antimilitaristas, o governo alemão ainda evocou a secção 129ª do código penal alemão de 1976 adoptada pelo Estado aquando da perseguição ao grupo militante Baader-Meinhof, e reenquadrada actualmente na luta da «guerra contra o terrorismo» (GMCT).

Como a secção 129ª se aplica especificamente a grupos, e não a pessoas, o poder teve dificuldade em demonstrar a culpabilidade de associação para Holm e seus colegas. A maior parte das acusações contra eles tinham a ver com acções imputáveis a outros.

Um outro pesquisador, Matthias B. é acusado de utilizar frases e palavras-chave como «gentrificação» (emburguesamento), que remete para a terminologia utilizada pelos activistas antimilitares acusados de incêndios criminosos, além de escrever «textos complicados e ter acesso a uma biblioteca de pesquisa». Para o procurador federal, isso demonstra a possibilidade dos investigadores agirem como líderes intelectuais dum «grupo terrorista». Um outro é acusado de se ter encontrado com três presumíveis membros do grupo militante, e um terceiro é suspeito por ter alguns dos seus números de telefone no seu caderno.

Os presumíveis delitos de Holm incluem, entre outros, o facto de ter «contactos estreitos» com os três investigadores acusados, de ter participado na manifestação de extrema-esquerda contra a cimeira económica do G-8 de Heiligendamm em 2007, que o governo alemão tentou perturbar com rusgas policiais preventivas anti-motim em Maio, e de ter «intencionalmente» deixado o seu telefone portátil em sua casa antes de uma reunião. Nota kafkaniana: este esquecimento – contrário ao esforço das autoridades de seguir-lhe o rasto – foi interpretado como um «comportamento conspirador». O poder deu também como exemplo a utilização frequente por parte de Holm de termos como «gentrificação» e «desigualdade» no seu trabalho, o que permite adivinhar a sua cumplicidade com o grupo militante. O que é chocante é o governo alemão sentir-se autorizado a evocar o conteúdo de uma pesquisa como prova de terrorismo. Como diz numa carta aberta de pesquisadores alemães e estrangeiros contestando este acontecimento «a pesquisa critica, principalmente a que tem envolvimento político, torna-se “terrorismo”»

A oposição com as suas acusações ridículas prova o esforço desesperado do poder em analisar estas acusações no quadro da guerra contra o terrorismo, que está em vias de se construir. As mobilizações fizeram-se imediatamente sentir com manifestações em Berlim e por toda a Alemanha em Agosto. Uma frente muito ampla constituiu-se para pôr imediatamente fim às perseguições resultantes da secção 129ª, e o partido d’ Os Verdes prometeu levar a questão ao Bundestag. Mais de três mil pesquisadores universitários e de instituições de pesquisa no mundo inteiro assinaram petições condenando as prisões e pedindo a abolição da secção 129ª (ver www.einstellung.so36.net/en, em inglês). Uma resolução bem formulada circulou na reunião anual da associação sociológica dos Estados Unidos em Nova Iorque, em meados de Agosto; um protesto foi apresentado pelo grupo internacional de geografia crítica; uma outra carta de protesto surgiu de um encontro de pesquisadores em ciência urbana em Vancouver. Dois pesquisadores do Reino Unido descreveram as acusações e as encarcerações como uma espécie de «Guantanamo na Alemanha».

Num primeiro tempo, o governo alemão recusou prestar declarações, mas certos sinais levam a crer que os protestos internacionais surtiram efeito. Depois de mais de três semanas na prisão, Holm foi posto em liberdade mediante uma caução, e o tribunal federal, muito séptico quanto às acusações de terrorismo, rejeitou, pelo menos temporariamente, as tentativas do procurador para o voltar a prender. Ficam, entretanto, as acusações sobre sete acusados.

O que é preciso reter é que a secção 129ª estabelece efectivamente a culpabilidade por associação. É um presente do passado num Estado alemão cada vez mais intolerante. Os Estados Unidos tiveram recentemente perseguições a activistas não violentos bem como a variadíssimas pessoas culpadas de se encontrarem no sítio errado à hora errada; o Reino Unido ameaçou recentemente recorrer à legislação antiterrorista contra os militantes que, recentemente, denunciaram, no aeroporto de Heathrow, as alterações climáticas. Nestes exemplos, a ameaça «terrorismo» é evocada para justificar a repressão de toda a oposição legítima aos políticos governamentais.

Como interpretar de outra maneira a irritação da policia secreta perante a palavra «gentrificação» ? O precedente perigoso que nos vem da Alemanha é que os escritos, dos trabalhos de pesquisa – sem falar do esquecimento do seu telefone portátil – podem ser e serão utilizados como provas contra o seu autor. Se o Estado alemão a isto pode permitir-se, será criado um precedente internacional e os dissidentes, por todo o mundo, vão ressentir-se deste vento gelado.


Neil Smith, directeur du Center for Place, Culture, and Politics à la City University of New York.

domingo, setembro 09, 2007

Estas férias nao vou esqueçe-las tão cedo
Ainda a 1900mts


Depois de subir-mos 830 mts pelo teleférico de Fuente Dé, e a 1900 mts aqui esta um jipe, tenta encontra-lo.

A vista do Parque de Fuente Dé

depois de 12km, o merecido descanço,

antes do regresso pelo mesmo caminho
Uma das particularidades da rota

sem comentários



O começo da Ruta del Cares




As minhas viagens

Pois bem aqui estou eu de novo, depois de um tempo de perguiça e férias. Desta vez fui até Picos da Europa.

quinta-feira, julho 26, 2007

A Crise do Imperialismo

Lucrando com a miséria

A ocupação norte-americana do Iraque fez reemergir o imperialismo mundial no léxico da linguagem do dia-a-dia, depois de uma ausência de cinco décadas, desde o final da Segunda Guerra Mundial. As aventuras militares dos Estados Unidos desde essa altura – particularmente na Coreia, Vietname, e América Central – foram disfarçadas de operações defensivas, contra o crescimento e a ameaça representada pelo Comunismo e todas as suas manifestações maléficas, nomeadamente, a libertação nacional, a autodeterminação, e a justiça económica e social.

A verdade, no entanto, é que o imperialismo se manteve uma constante sempre presente tal como as mudanças das estações do ano. A única coisa que se modificou foi o embrulho, o que se poderia descrever, parafraseando James Connolly, como um vinho velho numa garrafa nova.

A classe dominante nos EUA emergiu da Segunda Guerra Mundial como os novos donos do mundo. Como tal, eles perceberam rapidamente que a pletora de movimentos de libertação nacional que brotavam por todo o globo depois da guerra, determinava um abanão no jugo imperialista, e exigia novos métodos de controlo, diferentes dos utilizados anteriormente pelas potências europeias.

O objectivo declarado do Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), quando fundados por um pequeno núcleo de financeiros internacionais e banqueiros (principalmente britânicos e americanos, com os britânicos a aceitarem por esta altura o seu papel de parceiro inferior na nova ordem das coisas) em Bretton Woods, New Hampshire em 1944, era reconstruir a Europa e estabilizar os mercados financeiros mundiais, depois do turbilhão da Segunda Guerra Mundial.

Em linha com este objectivos, as ex-colónias, recém-independentes, no Terceiro Mundo, que gradualmente tinham ganham a sua liberdade, tinham de ser disciplinadas e controladas – pois elas possuíam os recursos humanos e naturais necessários à expansão neste novo império global.

Depois de sofrer a pilhagem do colonialismo, e depois da dura luta pela libertação, as nações do continente africano em particular, ficaram com as economias devastadas e moribundas, o que as colocava à mercê dos abutres, sob a forma dos grandes bancos internacionais e de instituições financeiras.

Estes bancos e instituições emprestaram grandes somas de dinheiro com taxas de juro predatórias, impossibilitando que o Terceiro Mundo se reconstruísse, desenvolvesse, e pagasse os seus empréstimos ao mesmo tempo.

Tinha de ser uma coisa ou outra.

As coisas entraram em crise em meados dos anos 1980 quando, para afastar a possibilidade de uma depressão mundial devido ao crédito mal parado por falta de pagamento dos países do Terceiro Mundo, o FMI e o BM entraram em cena e assumiram a responsabilidade dessas dívidas perante os grandes bancos mundiais como o Barclays, Crédit Lyonnais, Chase Manhattan, etc., que estavam sob a ameaça de colapso.
Foi um passo que colocou o FMI e o BM numa posição de poder inatacável, posição essa que eles nunca desdenhado.

Desde essa altura, 70 países no mundo foram forçados a adoptar Programas Estruturais de Ajustamento (PEA), desenhados e desenvolvidos pelo FMI e pelo BM. Estes PEA pretendiam reestruturar as economias dos ditos países, de forma a melhor poderem pagar as ajudas e os empréstimos dados pelo Primeiro Mundo, representado pelo FMI e pelo BM.

Isto exige que imponham programas de severa austeridade às suas já cambaleantes economias, que se traduzem na erradicação do tão necessário investimento público em programas sociais de saúde, educação, transportes, agricultura, e por aí fora.

Estes programas de austeridade abrem portas às corporações multinacionais, sempre à espreita de reduzir custos e de ter acesso a fontes baratas de matérias-primas, para entrarem e instalarem a sua produção, trazendo as pessoas, incluindo crianças em muitos casos, da terra para as fábricas, onde são forçadas a trabalhar muitas horas, em condições horríveis, e com salários de miséria.

Isto serve dois propósitos: destrói as agro-economias do Terceiro Mundo, que agora são obrigadas a importar os seus alimentos do Primeiro Mundo, e assegura o fluxo de riqueza para as corporações multinacionais do Primeiro Mundo e para os seus investidores internacionais.

O caso da Nigéria é típico. Hoje, a esperança de vida neste país rico em petróleo, dependente de ajudas, é de 47 anos para os homens e 52 para as mulheres. De uma população de 120 milhões de pessoas, 89 milhões vivem com menos de um dólar por dia, isto apesar do facto de o Delta do Níger conter grandes reservas de petróleo.

Um empréstimo do FMI de 12 mil milhões de dólares [8,7 mil milhões de euros] transformou-se numa dívida continuamente por pagar de 27 mil milhões de dólares [19,6 mil milhões de euros].
O povo da Nigéria não chega a ver um único dólar da riqueza produzida pelo seu petróleo, que sai do seu país, sem controlo, para os bolsos de um consórcio de companhias petrolíferas britânicas, holandesas, e norte-americanas. As suas estão reduzidas a uma luta diária pela sobrevivência.

No Terceiro Mundo, morrem por ano, seis milhões de crianças com idade inferior a 5 anos, devido à fome e a doenças tratáveis.

Este genocídio ano após ano contra as crianças dos pobres é o resultado líquido da rapina e do roubo que o FMI e o BM fazem aos recursos naturais e humanos do Terceiro Mundo, em nome das classes dominantes do Primeiro Mundo.

É um imperialismo com outro nome, um imperialismo suave que aparece disfarçado de ajuda, mas cujos verdadeiros objectivos são indistinguíveis do imperialismo duro que podemos ver agora na ocupação militar do Iraque.

Ambos se combinam de forma a alimentar o apetite insaciável dos poderes capitalistas do mercado livre.

Ambos condenam milhões à morte e à miséria.

Ambos constituem uma maldade que é inimiga do progresso humano.


Texto de John Wight publicado em http://www.counterpunch.org/wright07052007.html a 5 de Julho de 2007. Traduzido por Alexandre Leite para a Tlaxcala (rede de tradutores pela diversidade linguística).